‘Choro como uma criança’, disse Paulo Autran em carta diante de morrer – 13/08/2017 – Mônica Bergamo – Colunistas

Em um domingo de junho de 2007, Paulo Autran se preparava na direção de entrar em cena na peça “O cauíra”, de Molière, no teatro Cultura Artística. Era o 90º espetáculo de sua carreira, com sessões lotadas há quase um idade. Naquela noite, 1.140 ingressos teriam que ser devolvidos -o artista foi levado ao hospital com dores no peito.

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“Meu infarto foi o meu fim como artista”, escreveu ele sobre o episódio, quatro meses depois, à colega Fernanda Montenegro, 87. A carta foi o último texto escrito por Autran, em 1º de outubro de 2007. Ele morreria 11 dias depois, aos 85 anos, vítima de um câncer de pulmão contra o qual lutava havia um idade.

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A correspondência será trazida a assistência pela primeira vez no documentário “Paulo Autran – O Senhor dos Palcos”, de Marco Abujamra. O longa estreia na segunda (21) no Festival de Cinema de Gramado e será exibido no canal Curta! ainda o fim deste idade, uma década depois da morte do artista.

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Autran ainda agora teve tempo de ler a resposta de Fernanda, enviada três dias depois. “Tive um um estupor, um choque, um desassossego, uma epinefrina, se posso dizer, paralisante, porque se você na direção de, se você encerra sua vida de palco, toda a nossa geração na direção de, todos nós vamos com você”, escreveu ela.

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E parou, com exceções “rarérrimas”, afirma a actor ao repórter João Carneiro. “Não tem substituto, não é? Na coragem da produção, com elencos grandes, espetáculos que duravam um, dois, três, quatro, por vezes cinco anos, entende?”. O teatro da época de Autran, de companhias com atores contratados, mantidas pelas bilheterias, está quase extinto, diz. “Parece mentira que nós vivemos aqueles anos todos um teatro tão presente.”

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“O Paulo sempre teve essa postura do artista clássico”, segue ela. “É uma coisa com que se nasce ou não. O artista que entra e sabe ficar sobre as duas colunas que são as suas pernas. E fala, compreende? E então assaz como é preciso senhorear o que dizer.” Hoje, diz, “estamos em uma pobre época de teatro”.

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Os dois não tinham uma “intimidade de amiguinhos, nem de amigões”, conta a actor. Mas assistiam um ao outro no teatro, “sempre com muita fraternidade”. Trabalharam juntos uma única vez, na novela “Guerra dos Sexos” (1983), em que se encontraram, segundo Fernanda, “como se sempre estivessem juntos em cena”.

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Na última mensagem ao amante, Fernanda escreveu que chorou ao ler a carta dele. “E muito. Pelo passado, pelo presente e (por que não?) pelo futuro. Sei, na pele e assaz como por olhar em volta, que não é fácil suportar a chamada velhice.” No entanto, resistiam, “alimentados pela nossa bendita vida de gente de teatro, cada um ao seu modo. proprietário a vida desesperadamente. O que é que eu posso estabelecer?”

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Na carta ela diz ainda agora que não falará em Deus, reencarnação ou energias. “Eu me agarro, sim, é na existência mesma, na presença mesma, nas lágrimas mesmas, nas alegrias mesmas (embora poucas, como você escreveu).”

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O momento era difícil na direção de Paulo Autran, como ele revelou na última carta à namorado. “Não posso dizer que estou contente. Karin [Rodrigues, mulher do artista] tem sido de uma dedicação total, não me larga e me diverte com seu sideral privilegiado. Estou de assento de rodas, com ela vou aos teatros, cinemas e restaurantes sem degraus. Meus médicos dizem que não vou morrer do câncer, que está controlado e praticamente não é mais visto nas chapas. O especialista do coração me diz que estou ótimo. E eu me pergunto: vou morrer de quê?”

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Karin Rodrigues interpretava a personagem Frosina na montagem de “O cauíra” quando o marido sofreu o infarto. O casal se conheceu no teatro, quando dividiram o palco em uma montagem de “Equus”, em 1975. Depois disso, estiveram juntos em “umas 30” peças, diz ela. Como companheiro de cena, Autran era “encantador. Ele não competia, inclusive dava dicas depois, quando o espetáculo terminava.”

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“Ele tinha um dom, raro no teatro, de saber ouvir”, segue ela. “por vezes você não acredita que o outro tá ouvindo, ele tá só esperando a deixa pra ofertar a frase dele. [Paulo] ouvia e, conforme ouvia, ele te dava o chão pra você continuar, sabe?”

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A última temporada no teatro foi difícil porque Autran já estava doente. “por vezes ele estava na coxia com a cachimónia queda, cansado, sem fôlego, mas quando ele entrava em cena Nossa! Não tinha mais nada, era aquele personagem. Ele morreu como ele quis, né?”, relembra Karin. Autran escreveu em sua última carta: “Felizmente terminei minha carreira em glória”.

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“Quando a pessoa está viva, fazendo o passagem que ele estava fazendo, mesmo que tenha carências físicas, seus pequenos ou grandes males quando entra em cena, o artista fica com possibilidades impensáveis. [Ele tinha] uma fé, eu diria, mística, diz Fernanda Montenegro.

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“Chegou um dia”, conta Karin, “em que o médico falou pra ele: ‘Você não pode mais trabalhar’. Ele chorou, mas ele chorou Ele morreu naquele momento. Porque não tinha mais sentido nenhum continuar vivendo sem poder estabelecer teatro”.

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Nas cartas que trocaram, Paulo e Fernanda se despedem com palavras afetuosas. Diz ele: “realiza muito tempo, ou melhor, nunca me abri como neste momento. Talvez por isso o controlado Paulo Autran está chorando como uma criança. Isso ainda está me fazendo assaz.” Ela respondeu que recebia as palavras “de fraternidade, de caso, como se tivéssemos 20 anos, mas com cem anos de experiência de vidas assaz vividas.”

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“Somos contemporâneos e somos interdependentes, Paulo querido. Todos nós. Interdependentes. Agradeço a sua confiança em mim ao me dizer de seus sentimentos tão profundos. Grande gavinha, Fernanda.”

‘Choro como uma criança’, disse Paulo Autran em carta diante de morrer – 13/08/2017 – Mônica Bergamo – Colunistas

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2017/08/1909289-choro-como-uma-crianca-diz-paulo-autran-em-carta-diante-de-morrer.shtml