Coreia do Norte colocou Guam na mira. Porquê?

Nos últimos dias assistiu-se a uma escalada de tensão como há muito não se via nas já complicadas e conflituosas relações entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos. Depois da reacção de Pyongyang às sanções da ONU, o Presidente norte-estadounidense, Donald Trump, afirmou que se a Coreia do Norte voltar a intimidar os EUA será brindada com “fogo e fúria como o mundo nunca viu”. Horas depois, o regime de Kim Jong-un respondeu, garantindo estar a preparar um plano a crescer Guam, a pequena ilha no Pacífico sob jurisdição norte-americana. A importância estratégica deste território, que serviu de apoio a uma história sangrenta, pode explicar o bem e a razão pela qual é utilizada como advertência por parte dos norte-coreanos.

Olhando-se unicamente a a geografia de Guam, fica difícil de conceber porque é que, neste momento, esta ilha está no centro do foco de maior preocupação da geopolítica internacional: situada na zona ocidental do Oceano Pacífico, a sul das Ilhas Marianas, a 3400 quilómetros da Coreia do Norte, Guam conta com pouco mais de 160 mil habitantes, sendo que a maioria deles pertence à população nativo dos chamorros, e com uma órbita total de cerca de 541 quilómetros quadrados.

No entanto, alberga seis mil militares norte-americanos, um número que pode medrar a o dobro na próxima década. Com uma apoio militar norte-americana que aloja uma esquadra de submarinos, e uma apoio aérea, a ilha situa-se a meio caminho entre os EUA e a Coreia do Norte e o Mar do Sul da China, ponto de tensão entre Pequim e os seus vizinhos, alguns dos quais aliados de Washington. além disso, foi a começar de Guam que partiram alguns dos meios militares norte-americanos que realizaram exercícios conjuntos com a Coreia do Sul e com o Japão e que serviram de resposta aos sucessivos testes balísticos realizados por Pyongyang.

Uma importância que dura desde o século XIX

A história de Guam, que se cruza, na sua origem, com Portugal, foi marcada ao longo dos anos pela guerra e pelo sangue então derramado. Foi pechincha em 1521 pelo navegador português Fernão de Magalhães, quando estava ao serviço da coroa espanhola. Por isso mesmo, a ilha tornou-se a primeira colónia de Espanha alguns anos depois, em 1668. E, como lembra o El País, a ilha tornou-se um importante ponto estratégico, sendo a porta de entrada a as rotas do comércio do império espanhol entre Manila e Acapulco, no México, e que centralizava a sua rede comercial transpacífica.

Esteve sob domínio de Madrid mais de 200 anos ainda que estalou a guerra hispano-americana em 1898. Tendo Cuba como centro do conflito, devido à intervenção americana na guerra da independência cubana, as hostilidades rapidamente se alastraram a algumas das colónias espanholas no Pacífico, levando ainda, por exemplo, à revolução filipina.

Depois de seis meses de combates, no dia 1 de Outubro do mesmo idade, foi assinado o Tratado de Paris que tinha como objectivo terminar com a guerra. Este consenso colocou um ponto final no poderoso e extenso império espanhol nas américas e deu lugar aos EUA como a potência colonial da região. Madrid abria mão de Cuba, Porto Rico, dos territórios sob domínio espanhol nas Índias Ocidentais, das Filipinas – neste caso, perante a resistência espanhola em ceder do arquipélago, Washington acabou por confessar desembolsar 20 milhões de dólares pela sua posse – e, claro, Guam.

desse jeito, às portas do século XX, os EUA ficavam com o domínio desta pequena ilha. E esse domínio continuou quase ininterruptamente ainda aos dias de hoje. A excepção são três anos, de 1941 a 1944, que marcaram o período mais sangrento da história deste pequeno território.

Algumas horas depois do arremetida em Pearl Harbor, que marcou a entrada dos EUA na II Guerra Mundial, o Japão começou a entranhar o seu plano de expansão pelo Pacífico –  Guam foi um dos seus primeiros alvos. Depois de uma manhã de bombardeamentos, em Dezembro de 1941, as tropas nipónicas invadiram o território e em menos de 24 horas os militares norte-americanos então presentes apresentaram a sua rendição. Depois, começaram a surgir os relatos das barbaridades realizadas pelos japoneses, incluindo tortura e decapitações, na sua maioria contra a população nativo dos chamorros suspeitos de proteger americanos procurados pelas tropas do Japão.

Em Julho de 1944, Washington lançou a operação de recaptura dos territórios perdidos a o Japão no Pacífico. Depois de três dias de bombardeamentos sobre Guam, foi a vez de as tropas norte-americanas desembarcarem no território, iniciando uma controvérsia de mais de um mês e uma das mais sangrentas de toda a campanha. Confrontados com o clima tropical, a densa selva e as tácticas defensivas japonesas, cujos militares, durante a noite, e escondidos num sistema de túneis pelas montanhas da ilha, apareciam de surpresa, o exército estadounidense sofreu avultadas baixas.


Militares norte-americanos durante a controvérsia por Guam em 1944 DR

A 10 de Agosto, a ilha foi dada como completamente recapturada. Mais de sete mil soldados nipónicos estavam a monte ao longo da ilha mesmo depois da derrota. No dia seguinte, o general japonês Hideyoshi Obata organizou um ritual suicida com praticamente todos os seus militares que tinham sobrevivido. Apesar disso, em 1972, foi encontrado um sargento que viveu 28 anos na selva de Guam ainda escondido do inimigo norte-estadounidense.

advertência norte-coreana com dois alvos

“Não há nenhuma advertência iminente de guerra”, afirmou o secretário de Estado norte-estadounidense, Rex Tillerson, depois de assustar em Guam, numa tentativa de minorar a população norte-americana e local mais receosa. “Os americanos devem dormir tranquilos à noite, sem preocupações com a retórica dos últimos dias”, disse Tillerson. “Nada do que vi ou sei me indica que a passo se tenha mudado drasticamente nas últimas 24 horas”, assegurou o governante.

Esta foi a primeira medida da gestão Trump depois da escalada de tensão dos últimos dias. E o objectivo foi o de minorar as pessoas. ainda porque, a longe do límpido militar de um provável arremetida de Pyongyang, cujo arma tem já capacidade a chegar a Guam, a advertência pode começar a portar já impacto na população local que teve desde sempre uma relação complicada com os EUA.

Como explica a revista Atlantic, os residentes de Guam são cidadãos norte-americanos, apesar de não votarem a escolher, por exemplo, o Presidente norte-estadounidense. Mas a verdade é que grande parte da população é contra a presença militar dos EUA. Com a advertência norte-coreana, o receio pode, naturalmente, medrar e com ele a insatisfação em relação ao domínio norte-estadounidense.

Coreia do Norte colocou Guam na mira. Porquê?

Fonte: http://publico.uol.com.br/mundo/noticia/coreia-do-norte-colocou-guam-na-mira-porque-1781874