De Quebec ao sul do Brasil: o referendo pela independência da Catalunha pode impulsionar movimentos nas Américas? – BBC

  • Enrique Calvo/Reuters

Os separatistas de Quebec, no Canadá, olham no sentido de a Catalunha com vantagem. O prefeito da Ilha de Páscoa, no Chile, igualmente declarou que os ilhéus se identificam com a experiência dos catalães. E no sul do Brasil, mais uma consulta separatista foi realizada enquanto a tensão aumentava na Espanha.

A polêmica insistência catalã pela soberania, que pôs em xeque nas últimas semanas a unidade do Estado espanhol, teve ecos curiosos no hemisfério ocidental, animando independentistas e autonomistas de muitas partes do continente estadounidense.

“Nós nos vemos refletidos na Catalunha”, disse Anidria Rocha, coordenadora do movimento separatista brasílico “O Sul é o Meu País”, que no último domingo organizou uma votação simbólica sobre a separação de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná do resto do Brasil.

“Em um mundo globalizado, no qual temos a referência no momento em que ela ocorre, isso é quase como um efeito dominó”, disse Rocha à BBC.

Mas, apesar do entusiasmo, ainda então não está claro se a crise catalã poderá realmente tornar mais vigorosos os movimentos separatistas do outro lado do hercúleo.

‘2’

As ideias de separatismo dentro de países americanos são praticamente tão antigas quanto o próprio surgimento dessas nações.

O Panamá, por exemplo, nasceu como país ao se separar da Colômbia em 1903, por meio de um movimento independentista doméstico que recebeu uma achego chave dos Estados Unidos, interessado na construção do canal que atravessa a região.

E alguns projetos soberanistas nas Américas permaneceram latentes ao longo do tempo por motivos culturais ou econômicos: as regiões envolvidas com esses movimentos costumam ser mais ricas do que outras partes de seus respectivos países.

Nos Estados Unidos, movimentos que buscam a independência da Califórnia e do Texas igualmente comemoraram as novidades da Catalunha, mesmo que seus próprios projetos tenham possibilidades muito limitadas de sucesso.

“Estamos testemunhando o 2 da era da secessão”, disse Louis Marinelli, estadounidense fundado na Rússia e um dos principais apoiadores do separatismo californiano, o “Calexit”, à publicação New York Daily News.

Em Quebec, uma província canadense onde se fala majoritariamente francês, chegaram a ser realizados dois referendos de independência em 1980 e em 1995, nos quais o separatismo foi derrotado – da segunda vez, por uma margem pequena.

No entanto, em 2006 o parlamento canadense reconheceu Quebec como uma “nação” dentro do país, enquanto separatistas da província mantiveram a concepção de realizar um terceiro referendo.

E actualmente que a Catalunha realizou seu próprio referendo de independência – que foi declarado ilegal pela Justiça espanhola e com 90% de votos em prol do “sim” -, alguns quebequenses se sentem mais animados.

“Os catalães escolheram a independência, e actualmente é o restante”, disse, em seu perfil de redes sociais, Martine Ouellet, a líder do partido federal canadense Bloc Québécois (BQ), que viajou a Barcelona no sentido de reproduzir o voto.

‘Oportunistas’

As repercussões da Catalunha chegaram ainda mesmo à Ilha de Páscoa, no oceano Pacífico, onde membros da etnia ancetral rapa nui mantém diferenças históricas com o governo do Chile, pedindo por mais auto-suficiência.

“Nos identificamos com o que está acontecendo na Catalunha”, disse o prefeito da ilha ao jornal chileno El Mercurio de Valparaíso. “É o mesmo que vai nos sobrevir se o Chile e seus governos não levarem a sério os pedidos de décadas dos rapa nui.”

Nas redes sociais igualmente surgiu uma iniciativa que defende a separação dos Estados do norte do México no sentido de implementar a “República do México do Norte”, que ainda a terça-feira tinha mais de 50 mil curtidas no Facebook.

Alguns veem essa concepção como galhofa, mas o governador do Estado de Coahuila, Rubén Moreira, a qualificou como “um disparate”. “Nunca faltam oportunistas que, em momentos como este, tentam desfazer nosso país.”

‘Fragilidade’

No entanto, em seguida os acontecimentos na Catalunha – e talvez por causa de crise que geraram – os movimentos separatistas nas Américas ainda então parecem longe de conseguir sustentação em massa.

A consulta separatista informal do Sul do Brasil recebeu, no domingo, cerca de 350 mil votos pelo “sim”, segundo os organizadores – menos do que os cerca de 600 mil que outra consulta conseguiu um idade precedentemente, e com menos de 2% do total de eleitores registrados na região.

Isso apesar de o Brasil viver sua pior crise econômica em décadas e o maior escândalo de corrupção política de sua história.

Mas Anidria Rocha, a coordenadora do movimento, acredita que o grupo conseguiu as assinaturas necessárias no sentido de impulsionar um projeto de lei de iniciativa popular que convoque uma consulta oficial sobre a independência dos três Estados.

No entanto, qualquer iniciativa desse tipo se chocaria com o primeiro matéria da Constituição do Brasil, que estabelece que o país é uma “união indissolúvel” de seus Estados.

“Em países como Brasil, Argentina ou México não vejo uma grande vicissitude (de secessionismo), por causa da fragilidade dos movimentos separaristas locais e porque são países com regimes federalistas, que deram auto-suficiência e poderes aos governos locais”, diz Mauricio Santoro, professor de relações internacionais na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

“Há riscos de que isso possa se transformar em uma crise num país como a Bolívia, que teve na década passada tensões muito graves entre a região da ‘meia-lua’ (no leste do país) e o governo central”, explica.

Por outro lado, ainda então não há indícios de que um novo conflito ocorra nessa região da Bolívia, mais rica e menos aborígene do que em outras partes do país.

“Eu não diria que (a Catalunha) terá um efeito direto ou implicação nas Américas. A maioria dos países não têm problemas com movimentos separatistas da mesma forma que a Espanha”, diz Matt Qvortrup, professsor de Relações Internacionais da Universidade de Coventry, na Inglaterra.

‘Pouco provável’

produtor de um livro sobre referendos e conflitos étnicos, Qvortrup explica que a única forma de um movimento separatista haver efeitos práticos é se tornando realmente de massa. Ele diz, inclusive, que dentro de Quebec os secessionistas estão perdendo força.

Os dados reunidos pelo pesquisador mostram como é difícil levar adiante qualquer projeto separatista: desde 1980 houve 38 referendos de independência ao redor do mundo e em 35 deles ganhou o “sim”, mas só 13 resultaram de fato no nascimento de um novo Estado.

“E nesses 13 casos, o denominador comum foi que o Reino Unido, a França e os Estados Unidos apoiaram a criação destes novos Estados no Conselho de Segurança da ONU”, afirma Qvortrup.

“sequer que você consiga esse tipo de sustentação, é pouco provável que consiga haver seu próprio país.”

O especialista igualmente é cético a cerca de um provável “efeito de contágio” do referendo catalão.

“Se ele tivesse sido reconhecido, talvez tivesse se espalhado. Por isso ninguém na Europa o apoiou. Da maneira como está actualmente, ele não vai causar inspiração. Os países que tentam a independência viram como tem sido difícil – praticamente impossível – no sentido de a Catalunha e no sentido de o Curdistão.”

De Quebec ao sul do Brasil: o referendo pela independência da Catalunha pode impulsionar movimentos nas Américas? – BBC

Fonte: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2017/10/11/de-quebec-ao-sul-do-brasil-o-referendo-pela-independencia-da-catalunha-pode-impulsionar-movimentos-nas-americas.htm