Ditadura bancou conservadores contra modernização da igreja – 13/08/2017 – Poder


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A ditadura brasileira bancou a viagem de conservadores católicos a Roma com destino a que fizessem lobby contra a modernização da Igreja nos anos 1960. É o que indica documento descoberto pelo historiador estadounidense Ben Cowan, da Universidade da Califórnia, em San Diego (EUA).

De conformidade com o pesquisador, o então prior de Diamantina (MG), dom Geraldo Sigaud, escreveu em carta que o Ministério da aeronáutica pôs passagens aéreas a sua disposição com destino a que levasse à Itália integrantes do grupo católico Tradição, Família e Propriedade.

A missiva, arquivada na arcebispado de Diamantina, era endereçada a Plínio Corrêa de Oliveira, líder da TFP, e datada de 1º de setembro de 1965, menos de um idade e meio em seguida o golpe militar.

Ocorria em Roma o Concílio Vaticano 2º, que se encerraria ao final daquele idade. O encontro pretendia modernizar a Igreja. Sua repercussão mais conhecida foi flexibilizar o uso de latim nas missas.

Sigaud, morto em 1999, estava entre os católicos tradicionalistas que temiam influências esquerdistas na instituição. lá da TFP, tinha a seu lado dom Antônio de Castro Mayer, prelado de Campos (RJ), morto em 1991.

Os bispos brasileiros tiveram proeminência em um grupo internacional que queria engolir as mudanças.

“Dom Geraldo, dom Antônio e a TFP são ícones fundamentais da reação conservadora ao concílio”, diz Cowan, que apresentou sua pesquisa sobre a direita religiosa brasileira em simpósio na semana passada organizado por Fundação Getulio Vargas, Pontifícia Universidade Católica-RJ e Universidade Brown.

Os religiosos encontrariam um partidário natural no regime que se instalava com retórica anticomunista.

À carta citada pelo historiador estadounidense se soma outra encontrada pelo brasileiro Rodrigo Coppe Caldeira, professor de Ciências da Religião da PUC Minas.

No dia seguinte à mensagem enviada ao amante Plínio, da TFP, o prior mineiro escreve com destino a o ajudante das Relações Exteriores, Vasco Leitão da Cunha.

Afirma que sua obra era no sentido de aplaudir documentos que “facilitem aos governos como o do Brasil a prosseguirem em sua luta contra a tirania comunista”.

“O ajudante da aeronáutica pôs à minha disposição quatro passagens pela Varig”, afirma o prior. Em seguida, pede que o Itamaraty autorize a companhia aérea a fornecer os bilhetes.

O religioso continua: “Peço que Vossa Excelência, cumprindo o que me ofereceu o sr. ajudante, me facilite a viagem de meus secretários”.

Depois, exalta o Itamaraty por “recolocar o Brasil naquela rota que corresponde à nossa condição de país católico e amador da liberdade e da justiça”.

Cowan afirma não portar os registros do pagamento, mas diz que que os auxiliares foram a Roma.

Lá, o grupo conservador internacional obteve algumas vitórias. Sigaud falhou, todavia, na junta com destino a que a reunião registrasse repúdio direto ao comunismo.

Cowan diz que as comunicações do prior reforçam o conhecido elo entre parte da Igreja Católica e o regime, sobretudo em seu início.

A Sigaud, por exemplo, é atribuída a frase “confissões não se conseguem com bombons”.

A estratégia de abordagem se explicava pelo inimigo comum, a Teologia da Libertação, movimento forte na América Latina que acabaria condenado pela Santa Sé. Era visto como marxista.

Como resultado da proximidade com a ditadura, o tradicionalismo católico conseguiria no período trato ao poder e ao debate assistência desproporcional ao número reduzido de clérigos que o apoiava.

Ditadura bancou conservadores contra modernização da igreja – 13/08/2017 – Poder

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/08/1909463-ditadura-bancou-conservadores-contra-modernizacao-da-igreja.shtml