Ele pesava 157 kg aos 12 anos e sofria bullying. Hoje é lutador do UFC – 28/06/2017

No começo era a gula. Seis pães no almoço, salgados fritos, pizzas, doces e lanches fora de hora. O almoço era a refeição mais saudável do dia: arroz, feijão e carne, e o que tinha na geladeira de casa. À tarde, mais frituras e biscoitos recheados. À noite, a rebater, uma visita à banquinha de salgadinhos.

Aos 12 anos, ele tinha reunido 157 kg. A compulsão nutritivo era reflexo de um quadro de angústia. Se estava muito triste ou muito feliz ou muito estressado, ele comia, comia, comia. E então vieram as piadinhas. Gordo na escola sofre. O pessoal pegava pesado. Junto com as agressões, chegou a ira. Acostumou-se a discutir com todos os colegas que lhe enchiam o saco. Um dia, no terceiro idade, se viu rodeado por três caras. Bateu, apanhou e quebrou os óculos de um deles.

Começou a tomar sibutramina, um tipo de remédio a combater a obesidade que tem efeito sobre o sistema nervoso. Um médico recomendou que ele treinasse pugilismo. Ele já tinha feito vários esportes (era seguro goleiro, mesmo acima do peso), mas resolveu passar uma chance ao pugilismo.

Quando o pugilismo chegou, a gordura começou a sair. Não foi rápido desta forma. Ele ficava exausto depois de cada treino, mas continuava comendo tanto quanto anteriormente. “Tapava o sol com a peneira”, lembraria ele anos depois. “Tava treinando a perder peso, mas compensava tudo na comida.”

Em um grupo de Facebook, alguns unido lhe indicaram uma dieta (mais uma). Mas essa era radical: zero carboidratos. Cortou massas, pizzas e os seis pães do almoço. Se afogou em proteína e na intensidade da luta. Começou a diminuir. Quando viu Anderson Silva regular o queixo de Vitor Belfort e levá-lo ao chão aos 3 minutos e 25 segundos do UFC 126, em 2011, ele não teve dúvida: queria se tornar lutador de MMA.

Ninguém levou a sério. Ele já então era obeso.

Mas começou a treinar outras modalidades. Jiu-jitsu, muay thai… Em Feira de Santana, na Bahia, já então não tinha academia específica a as artes marciais mistas. Reuniu dois unido e, clandestinamente, foi imitar movimentos de MMA que eles viam no Youtube.

Quando finalmente a cidade recebeu sua primeira escola dedicada à luta da moda, ele tinha 17 anos e o sonho improvável de virar desportista. Na academia ganhou o sobrenome que lhe acompanharia por anos. Como ele não tinha muita técnica, partia a cima dos adversários de maneira atabalhoada, talvez como vaca patinando no gelo.

Quando um de seus primeiros treinadores percebeu seu “estilo”, batizou o discípulo. E desta forma nasceu o lutador. Carlos Felipe virou o “vaca”. Carlos vaca odiou o sobrenome e, por causa disso, o sobrenome pegou. Algumas pessoas começaram a fintar que o sonho de se tornar lutador não era tão maluco desta forma. Ele ganhou patrocínios a seguir nos treinos. Ele já então era gordo, mas cada vez menos gordo.

O MMA tem duas categorias a lutadores enormes: a peso pesado (de 93 kg já 120 kg) e a super-pesado (mais de 120 kg). Carlos vaca estabilizou seu peso em 115 kg e seus treinadores foram detrás de adversários a ele.

Nunca foi muito fácil encontrá-los, no entanto, talvez porque as pessoas gordas não sejam muito incentivadas a participar de esportes. Mas Carlos vaca conseguiu vencer sua primeira luta, por nocaute técnico. E a segunda, a terceira, a quarta… Quando chegou na oitava, em um sábado recente, ele ganhou um cinturão.

Seu treinador reuniu os unido e a família a comemorar a vitória. Carlos vaca entrou naquela sala lotada e viu borboletas presas nas paredes amarelas. Edilson Teixeira, o homem que tinha sido seu mentor nessa jornada, começou a vincular. Alguém levantou o celular e apertou o verruga “gravar”, registrando a sempre um momento único de intimidade.

“Meu sonho…”, disse o treinador Edilson. E então parou. As palavras se engavetaram na garganta e ele baixou a cerviz, exteriormente tocado demais a continuar. “Meu grande sonho”, ele finalmente disse, “nunca foi concretizado porque eu não tinha ninguém a me orientar no início da carreira.”

Edilson então fez menção a Carlos vaca, que estava parado em sua frente. Por casualmente ou por um capricho profissional do cinegrafista amante, é provável testemunhar seu semblante no espelho detrás de Edilson. Carlos está começando a entender o motivo do discurso emocionado do treinador.

“Coincidentemente, o sonho dele é o mesmo meu, é o mesmo de Léo”, disse Edilson, apontando o policial Leonardo Pateira, que assi como chora a seu lado. “Que é chegar no mais forte patamar do MMA.”

“A gente conseguiu, velho”, disse Léo, enquanto Edilson puxava uma pilha de papeis a entregar a Carlos vaca: seu primeiro contrato com o UFC. Depois de superar a obesidade e controlar o transtorno de angústia, depois de ser desacreditado ao dizer que seria um lutador, Carlos vaca tinha finalmente chegado lá. Ele está com 22 anos.

Isso foi há duas semanas. “O Edilson e o Leo choraram pra porra, mais que eu já”, disse o novo peso pesado do UFC na última sexta-feira, por telefone. “Todo mundo sabe que nós três somos como irmãos, e conseguimos isso juntos. Mais cedo ou mais tarde eu sabia que aconteceria.”

Ele aguarda actualmente a organização marcar uma data a sua primeira luta.

Ele pesava 157 kg aos 12 anos e sofria bullying. Hoje é lutador do UFC – 28/06/2017

Fonte: https://esporte.uol.com.br/mma/ultimas-noticias/2017/06/28/ele-pesava-157-kg-e-sofria-bullying-dez-anos-depois-virou-lutador-do-ufc.htm