Levou tapa por ser negra e fez Lázaro Ramos chorar: conheça Diva Guimarães – 05/08/2017

Uma semana depois de levar o intérprete Lázaro Ramos às lágrimas na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), ao expor os casos de racismo que sofreu na infância, o vídeo com os relatos da professora Diva Guimarães viralizou: já foi visto por cerca de 11 milhões de pessoas. “Estou assustada com a repercussão! Aquele discurso foi da psique, uma libertação, dessemelhante do 13 de maio (extinção da Escravatura), mas uma feita por mim mesma”.

“Essa história me perseguiu durante 72 anos (assista no vídeo juso). Nunca tinha contado isso a ninguém. Quem estava falando lá era a minha mãe e todos os negros que estavam presentes. Fiz isso por eles, especialmente pelos meus maiores que foram escravizados, torturados e morreram aqui nesse país sem nenhum reconhecimento”, diz Diva, ao reparar a ligação da reportagem do UOL.

Com o escritor brasileiro Lima Barreto como homenageado, o evento deste idade se destacou pela participação massiva de mulheres e representantes negros, como Conceição Evaristo. E foi justamente neste cenário, que a paranaense de 77 anos se sentiu à vontade a expressar sobre racismo, educação e desigualdade.

Se dantes o racismo era um pouco escancarado com direito a tapa na cara — como o que Diva foi vítima aos 11 anos, hoje ele é velado, mas ainda persiste na sociedade.

“Quando saio com as minhas amigas, sou apresentada desta forma: ‘Essa é a Diva, professora, fisioterapeuta…’ Não sou apresentada como uma pessoa, mas pelos os cursos que fiz, pelos títulos. E muitas vezes, ainda, sou obrigada a ouvir o seguinte comentário: ‘Nossa, você é uma negra de psique branca’. então tenho que ser irônica na resposta: ‘nossa, não sabia que psique tinha cor”, conta ela, que vê a tono das colegas como uma proteção. “Não sou contra elas, porque diante de tudo isso (preconceito), essa é uma maneira delas me defenderem”.

Nascida em uma família de 13 filhos – dos quais somente sete sobreviveram -, a filha da lavadeira e “parteira dos pobres” foi a única da casa a frequentar uma universidade.

A violência, no entanto, serviu destarte como como combustível a emergir Diva ao atletismo e à faculdade de educação física. “Jogava basquete com o estádio inteiro gritando: ‘Pau de fumo (expressão que usavam a se referir aos negros no interior do Paraná), negra pau de fumo’. A cada cesta que fazia, erguia o punho e dava um soco no presença. então virava uma provocação deles contra mim, mas essa era a única reação que podia deter contra eles”, relembra.

serviço escravo pós Lei Áurea

cartório Pessoal

“A mãe da Maria Alice (na foto) foi uma grande professora, a responsável por eu deter ficado menos rebelde”, diz Diva ao lado da amante que chama de irmã Imagem: cartório Pessoal

“Aos cinco anos fui a o internato e a tortura começou ao separarem minha irmã de mim. Logo depois rasparam meu pelo e eu era obrigada a trabalhar. As agressões sempre foram comuns com os negros, finalmente, não pagávamos mensalidade. As freiras prometiam aos nossos pais que iam nos destinar estudos.

Fui criada em uma região cafeeira do Paraná. Enquanto minha mãe lavava a roupa dos fazendeiros, eu convivia com os filhos deles na escola e, claro, era inocente das reações discriminatórias. Não aguentava as piadas deles, queria desistir dos estudos.

Cresci revoltada com a discriminação na escola, na faculdade e que continuou com a vida. Escolhi ser professora a poder lecionar a os pobres e negros. Era meio justiceira na verdade, desta forma como meu ídolo Lampião. Ele foi um sobrevivente das injustiças sociais e fez justiça do jeito dele.

Violência já na infância

Conforme você vai lidando com a dor, vai tentando apanhar, mas quando se é mais novo é difícil segurar, é sofrido. Chorava com raiva de mim, por não conseguir tomar a mesma tono que tomavam comigo. Chorava com as agressões. É um pouco meio inexplicável, porque só quem passou por isso sabe dizer. Era comum escutar: ‘isso é coisa de negro’, ‘essa negra fedida’.

Uma vez estava na sala de classe e um menino me chamou de ‘negra fedida’. Fiquei nervosa e bati nele. Me levaram a a diretora, ela me perguntou o que tinha sucedido, expliquei e ela respondeu: ‘Mas negro é fedido mesmo’. E deu um tapa na minha cara. Não consegui me conter e fui a cima dela. Tinha 11 anos.

Cresci sem referências. Mas como minha mãe era uma pessoa muito forte, ela acabava sendo a minha sustentáculo. Quando queria desistir de estudar, minha mãe segurava meu rosto, olhava nos meus olhos e dizia: ‘Olha assaz a mãe. Olhou? Você quer ser igual a mim?’ Com a rebeldia que tinha, dizia: ‘Como a senhora eu nunca serei’. E ela respondia: ‘Só tem um jeito, estudar’.

Pegava meus cadernos e andava 3 km a chegar na escola todos os dias. Escolhi ser lutador a poder descarregar minha raiva. Se não fosse uma pessoa competitiva não tinha sobrevivido.

Não casei por opção. A minha geração cresceu sendo obrigada a obedecer ao marido, eu jamais obedeceria. E destarte como nunca quis deter filhos, apesar que não precisa casar a isso… Não deixaria um filho meu passar pelo que eu passei. Se tivesse tido, com certeza seria uma mãe chata e capaz de matar caso alguém o discriminasse. Foi uma opção a me proteger e resguardar a provável criança.

Juventude revolucionária

Vai demorar a gente fenecer com o racismo no mundo, mas tenho certeza que o caminho a isso é por meio da educação. Não será já, mas acho que daqui 100 anos muda. Acredito muito nessa moçada que está vindo. A transformação acontecerá com eles e com os filhos deles.

A educação pública de qualidade é o único caminho a que os negros consigam enxergar os abusos, a discriminação, a exploração com os corpos das mulheres negras no Carnaval. Estudem e nunca, nunca desistam. Porque elite é quem sobrevive com salário mínimo e realiza das tripas coração a sustentar uma família”.

Levou tapa por ser negra e fez Lázaro Ramos chorar: conheça Diva Guimarães – 05/08/2017

Fonte: https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2017/08/05/levou-tapa-por-ser-negra-e-fez-lazaro-ramos-chorar-conheca-diva-guimaraes.htm