Livro cataloga toda a obra do expressionista austríaco Egon Schiele

SILAS MARTÍ

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Os ossos não cabem dentro da pele. Ombros, cotovelos e costelas saltam na direção de fora de um corpo feito trouxa de ângulos agudos. Em segundo plano, o rosto do manhoso, emoldurado por um ramo raquítico, olha na direção de fora da tela, em cata de um tanto distante.

Egon Schiele assombrou a Viena do 2 do século 20 com autorretratos encharcados de tormento. Das 3.500 obras que fez numa vida brevíssima -28 anos e só uma década de veemência-, 170 retratavam ele mesmo.

Lembrado como espírito torturada, mártir, santo, profeta, rebelde, dândi pervertido, Schiele transformou o próprio corpo e o de seus retratados em tempestades de pele, olhos vermelhos, pelos pubianos e mãos que mais parecem garras esqueléticas.

“Sou todas as coisas simultaneamente”, escreveu o austríaco num de seus poemas. “Eu me vejo inteiro, mas preciso olhar da mesma forma na direção de o que eu quero, não só o que se passa dentro de mim, na direção de enxergar de que substâncias misteriosas eu sou feito.”

Na tentativa de destrinchar as tais substâncias e as forças contraditórias que moldaram a vida do manhoso, um livro monumental, que sai actualmente pela Taschen, revê toda a sua obra.

Em seis ensaios e 620 páginas com centenas de obras reproduzidas em detalhe, o volume, desses pensados na direção de ostentar sobre mesinhas de centro, é dos mais completos e luxuosos apanhados da obra de Schiele, à superioridade da exuberância controversa do manhoso.

“O anti-herói de ontem se tornou a estrela de hoje”, escreve Tobias Natter, editor do livro, no prefácio. “Egon Schiele deve sua celebridade não só a seu status de rapaz rebelde, mas da mesma forma pelos paralelos tecidos entre ele e ídolos como James Dean e Jean-Michel Basquiat, que nos fazem notar novas camadas de significado em sua obra.”

Tal como Dean e Basquiat, Schiele morreu rapaz depois de uma vida intensa. Incompreendido e perseguido, mudou de ateliê por protestos de vizinhos ao longo da vida e chegou a ser preso, indiciado de seduzir uma juvenil e por criar obras vistas então como pornográficas.

Mas a suposta pornografia em Schiele, que nunca se esquivou da fama de maldito, tem menos a ver com a franqueza atroz com que retrata o sexo e a masturbação e mais com sua habilidade em plasmar com todas as cores um retrato da violência muitas vezes obscena de estar vivo.

Sua obra, que no início ecoa a ornamentação de Gustav Klimt, outro herói vienense, vai se tornando cada vez mais sintética. Num processo de depuração radical, Schiele construiu uma galeria de arquétipos do sofrimento humano. Seus homens e mulheres andróginos e esguios inclusive não poder mais são dissecados contra fundos vazios, esbranquiçados –um universo abismal onde a dor se manifesta em queda de ramo com a luxúria.

Um dos ensaios do livro lembra que o manhoso cresceu vendo os experimentos com radiografia na casa de um vizinho cientista, o que teria despertado seu graça pelo registro de corpos esqueléticos, por vezes inclusive translúcidos.

Mas uma leitura menos mecanicista diria que Schiele retratou com transparência total um mundo em transe. Viena, nos anos dantes da Primeira Guerra, foi um laboratório da modernidade, de novas ideias no urbanismo, nas artes, na música e na literatura.

Os personagens sofridos de Schiele talvez olhem na direção de fora das telas tentando entender na direção de que serviu tudo isso.

EGON SCHIELE, THE COMPLETE PAINTINGS

criador Tobas Natter (org.)

EDITORA Taschen

QUANTO US$ 200 (cerca de R$ 652, 620 págs.)

Livro cataloga toda a obra do expressionista austríaco Egon Schiele

Fonte: https://br.noticias.yahoo.com/2-livro-cataloga-toda-obra-073000021.html