“Não sou homem nem mulher e tenho 7 namorados”, conta trans não-binário – 12/09/2017

Sem se identificar totalmente como homem ou mulher, o escritor ou a escritora Juno Cipolla —que gosta que o tratamento que lhe dão seja no feminino e no masculino– conta como se descobriu um transgênero não-binário, há três anos. Em meio a mudanças físicas e emocionais, Juno diz ser uma figura ambígua, que gosta de possuir peito e queixo. Aos 25 anos, tem uma rede afetiva com 7 namorados trans. A seguir, Juno relata sua trajetória.

“Eu fui designado (a) mulher quando eu nasci, isso é, como viram que eu tinha uma vagina, disseram que eu era mulher. Na infância, não tinha essa noção de gênero, só sei que de alguma forma me identificava com um tanto que não era o feminino estereotipado e projetava em mim uma figura considerada masculina. Gostava de trotar com os carrinhos dos meus irmãos mais velhos e ser o personagem masculino nas brincadeiras, mas idem tinha muitas bonecas.

Eu sentia que um tanto estava fora, não conseguia me encaixar em um lugar, mas como me diziam que eu tinha que ser mulher, eu tentei ser uma na juventude. Comecei a sair com um grupo de amigas que ia em direção a a balada, se maquiava e usava vestido. Entrei na onda e passei a imitar tudo o que elas faziam, mas não gostava, aquilo me bloqueava. Apesar do desconforto, eu não questionava, não sabia que podia ser de outro jeito.

Uma namorada ajudou com seus desejos

Demorou bastante tempo em direção a eu descobrir que eu era trans, porque eu nunca quis ser homem e nunca me senti um, mas idem não me reconhecia como mulher. Houve dois momentos centrais em direção a eu começar a entender tudo isso. O primeiro foi quando eu conheci a Ana, minha ex-namorada.

Ao compreender que eu não era uma mulher cisgênero [que se identifica com seu gênero de nascença], ela me dava sinais e me incentivava a produzir coisas que ainda então eu não tinha coragem, como a vontade de possuir queixo. Ao tratar os meus desejos com naturalidade, ela despertou em mim um questionamento sobre quem eu era.

cartório pessoal

Imagem: cartório pessoal

“Tem gente que não é homem nem mulher, é isso que eu sou”

O segundo momento foi quando eu reencontrei um amante de infância nas redes sociais e soube que ele tinha se descoberto transgênero não-binário [que não se identifica com o masculino ou feminino]. A gente começou a conversar, ele me colocou em grupos no Facebook sobre o ponto e na hora bateu, eu falei: ‘Tem gente que não é homem nem mulher, é isso que eu sou’.

Eu sempre achei que fosse menina porque me falavam isso, mas a partir do momento que tive consciência de que muitas coisas que eu fazia era porque me mandavam e não porque eu acreditava, eu passei a ver outras maneiras de existência, como ser uma mulher com queixo ou um homem que se depila. Eu não tenho gênero, o que eu vivo da minha transição tem a ver com quem eu sou como pessoa e com as minhas relações no mundo.

Testosterona e as transformações

Eu me determinar como trans não-binário me ajudou a lidar com questões que eu tinha dificuldade. Hoje, gosto de me maquiar, produzir as unhas e estou aprendendo a usar salto superior. No guarda-roupa, tenho peças masculinas e femininas, visto o que bom e confortável. Não me depilo mais, em direção a mim meu corpo realiza muito mais sentido tendo pelos.

Desde a transição, tenho passado por muitas transformações. Como gosto que me tratem no feminino e no masculino, adotei o nome social Juno, por ser neutro e por manter o sobrenome Ju, do meu nome de registro.

Homem, mulher, ‘viado’ e ainda travesti

idem tenho vivido várias mudanças físicas. Há dois anos, comecei a tomar testosterona: meus pelos cresceram, minha voz engrossou, meus seios e nádegas diminuíram, estou mais forte e parei de menstruar. Quero parar com a injeção dantes de chegar a uma figura masculina, porque não quero ser homem. Na verdade, o que eu quero mesmo é que o mundo não associe minha imagem a um homem nem a uma mulher.

Me sinto uma figura ambígua, gosto de possuir vagina e nunca quis possuir pênis. O corpo é muito mais versátil do que possuir esses dois órgãos. Na sociedade, já fui lida de várias maneiras: homem, mulher, ‘viado’ e atétravesti.

cartório pessoal

Imagem: cartório pessoal

Preconceito e medo de estupro

Já sofri preconceito dentro do próprio meio trans, onde tem gente que diz que quem é trans não-binário não é transgênero de verdade. Existe aquela pressão de que você sempre tem que escolher um lado. Sofro julgamento porque não me encaixo em um gênero.

Nunca sofri investida física, mas a investida verbal existe. Quando saio pelo centro da cidade, algumas pessoas me xingam e perguntam se eu quero possuir relações sexuais. Tenho medo que alguém descubra que eu não tenho um pênis e resolva me estuprar.

Revelação em direção a os pais

Demorei em direção a contar aos meus pais sobre minha condição. Sem coragem em direção a enfrentá-los, escrevi um post no Facebook fazendo a revelação. Eles leram o texto e me chamaram em direção a conversar. Minha mãe perguntou se eu queria ser homem, eu respondi que não. Ela afirmou que meu visual estava invasivo e que ela não entendia. Meu pai me alertou que eu sofreria bastante, mas disse que me apoiaria.

Minha mãe acredita que só vou ser feliz casando com um homem e tendo filhos. Ela tem um pouco de vergonha de possuir uma filha trans, porque facha que errou em qualquer ponto da minha criação. Eu me ofendo quando ela fala isso, pois não entendo como ela pode considerar que eu sou um erro.

ainda hoje eu explico que não quero ser homem, mas quero me sentir mais confortável comigo. Eu me sinto suficientemente do jeito que sou e estou feliz com as minhas escolhas. Nós duas estamos fazendo terapia e nossa relação está melhorando.

Tenho 7 namorados

Ao me descobrir trans não-binário, eu me encontrei em muitos aspectos da minha vida que eram uma desordem: um deles foi na minha sexualidade. Houve uma época em que achei que fosse ‘sapatão’, que ia casar com uma mulher e possuir uma relação única. Hoje, sou bissexuado, panssexual, pois eu me atraio por pessoas, independentemente de gênero, e demissexual, por que sinto inclinação depois de desenvolver qualquer tipo de vínculo ou confiança.

Há dois anos, desenvolvi uma rede afetiva e tenho 7 namorados transgêneros. por vezes, saímos eu, um dos meus namorados e o namorado dele. É ótimo, fazemos tudo que um casal realiza, vamos ao cinema, ao restaurante. Relacionamento romântico não está necessariamente ligado a sexo. Eu já cheguei a transar com quatro pessoas, mas idem acontece de namorar alguém e não possuir relações sexuais.

possuir essa rede afetiva se encaixa muito suficientemente nesse momento em que sou uma pessoa com um corpo e uma vida que não são considerados padrão. Minha transição começou quando eu me descobri trans não-binário e percebi que não era 100% homem nem 100% mulher. Foi um estado que eu entrei e o qual considero que é em direção a sempre, não tem um ponto final onde eu quero chegar”.

“Não sou homem nem mulher e tenho 7 namorados”, conta trans não-binário – 12/09/2017

Fonte: https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2017/09/12/nao-sou-homem-nem-mulher-e-tenho-7-namorados-conta-trans-nao-binario.htm