Sem dinheiro, único cemitério de escravos das Américas fechará em setembro no Rio. Falta proveito? – Notícias

Único sítio antigo do maior mercado de escravos das Américas, o chamado Cemitério dos Pretos Novos, na região central do Rio de Janeiro, onde funciona um instituto de pesquisa desse período da história do Brasil, deve encerrar suas atividades em setembro por falta de dinheiro. As ossadas foram encontradas casualmente durante uma obra no chão de um sobrado no bairro da Gamboa, em 1996. O sítio foi mantido pelo casal proprietário do imóvel que o transformou no IPN (Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos).

Um convênio com a prefeitura, firmado de 2013, garantia verba na direção de pagar despesas básicas de funcionamento –funcionários e pesquisadores são voluntários–, mas o aporte terminou em março passado e não será renovado.

O lugar é um dos pilares na direção de o reconhecimento do embarcadoiro do Valongo como Patrimônio da Humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidades na direção de a Educação, Ciência e Cultura), que aconteceu no último dia 9 de julho, em Cracóvia, na Polônia. Dos cerca de 2 milhões de escravizados trazidos na direção de o Estado do Rio entre os séculos 18 e 19 –um milhão passou pelo Valongo.

Se o IPN fechar, o embarcadoiro corre o risco de perder o título de patrimônio.

A região onde está o embarcadoiro, o cemitério e dessa forma como o quilombo da Pedra do Sal, é chamada de Pequena façanha por conta desses elementos. O sobrado onde o sítio foi encontrado fica na rua Pedro Ernesto. O termo “pretos novos” era usado por serem africanos escravizados recém-chegados ao país. Debilitados pelas péssimas condições da viagem, muitos morriam nos primeiros dias em seguida a chegada. Havia dessa forma como os que chegavam mortos.

Segundo Merced Guimarães, criadora e diretora do IPN, a estimativa é que de entre 30 e 50 mil negros escravizados tenham sido enterrados no cemitério, que funcionou entre os anos de 1774 e 1830.

“Pesquisadores que passaram por aqui atestaram que é o único cemitério das Américas com certeza de terem enterrados africanos”, diz Merced.

O IPN começou a ganhar forma em 2005, quando Merced, uma empresária do setor de controle de pragas, ao lado do marido, Petruccio Guimarães, resolveram montar um grupo de pesquisas. No lugar, foram encontrados cerca de 5.000 fragmentos arqueológicos e ossos não cremados, que permitiram identificar 28 corpos, a maioria deles de homens com idade entre 18 e 25 anos. dessa forma como foram encontradas pontas de lança, argolas, colares, contas de vidro, peças de argila, porcelanas e conchas.

“Somos independentes, sem fins lucrativos. No começo, nem sabíamos direito o que era. A prefeitura sempre foi omissa nessa questão. Éramos o ‘casal de malucos’ brigando pela história. Passaram-se três governos e, quando veio a revitalização [da região portuária] e a invento do Valongo [em 2011], uma história começou a ser contada”, afirma a diretora.

A perigo de fechar não é a primeira. Merced já havia declarado que fecharia em 2013, quando houve a achegamento da Cdurp (Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro), gestora da prefeitura no Porto Maravilha, região que passou por revitalização. A Pequena façanha está inserida nessa superfície.

“Usava o dinheiro da minha empresa e não tinha mais como manter. Então a Cdurp fez um estudo e começaram com um aporte anual de R$ 30 mil, que dava na direção de pagar cozimento, luz, telefone e material limpeza. Funcionários não. Em 2014, foi o mesmo valor e, em 2015, foi R$ 60 mil por conta do extensão dos gastos. idade passado foram R$ 85 mil porque pagamos uma pessoa na direção de estabelecer o Circuito da Herança Africana [roteiro de passeio] que foi um ocorrência, mais de 1.500 pessoas em um idade. Esse idade não aconteceu nada”, relatou Merced.

Segundo ela, a companhia gestora do Porto Maravilha informou que não tinha mais como estabelecer o repasse ao IPN.

Marcos Ramos/indústria O Globo

“Em setembro não temos mais dinheiro, não tem como continuar”, diz Merced Guimarães

“Em março não tínhamos mais dinheiro na direção de pagar a luz. Recebemos R$ 8.000 da prefeitura, fizemos uma campanha de doações e o dinheiro acaba em agosto. Em setembro não temos mais dinheiro, não tem como continuar. Precisamos de no mínimo R$ 6.000 por mês”, explica.

Como o memorial era financiado?

na direção de se entender de onde vinha o dinheiro repassado do Cdurp ao IPN, é preciso entender como foi a operação financeira que obteve recursos na direção de a revitalização da região.

À época, a prefeitura criou um modelo de venda de potencial suplementar de construção da superfície, com objetivo de garantir as obras e a prestação de serviços inclusive 2026 na região. O potencial de construção é o que a legislação municipal define sobre tipo, estatura e tamanho de imóvel por bairro.

na direção de a recuperação de regiões degradadas, o Estatuto das Cidades prevê a criação de operações urbanas em que o município estabelece regras específicas na direção de novas construções. Ou seja, são permitidos imóveis maiores em troca de contribuição financeira. E isso se deu por meio da venda dos Cepacs (Certificados de Potencial suplementar de Construção) –cada título equivale a uma quantidade de metros quadrados a ser construída.

O guardado com a venda de Cepacs deveria ser utilizado na direção de a requalificação urbana dos 5 milhões de metros quadrados da superfície, como a reconstrução das redes de drenagem, cozimento, esgoto, gás natural, eletricidade, iluminação pública e telecomunicações, urbanização e implantação do novo sistema viário, lá da conservação e da prestação de serviços.

De todo o valor guardado, sequer 3% deveriam ser destinados à valorização do patrimônio material e imaterial da superfície –desse percentual saiu o aporte que era repassado ao IPN.

De trato com o hodierno presidente da Cdurp, Antonio Carlos Mendes Barbosa, em 2011, os 3% eram o equivalente a R$ 130 milhões.

“Era um valor que seria usado somente em projetos de revitalização, e valorização da cultura e monumentos tombados. Foi feito um concurso onde foram eleitos projetos na direção de isso, como a revitalização do largo São Francisco da Prainha, do embarcadoiro do Valongo. O dinheiro acabou em março deste idade. Foram gastos os R$ 130 milhões e sua rentabilidade. Chegamos aqui com R$ 1.600 no cofre. Não pude renovar o contrato com o IPN”, justifica Barbosa.

na direção de o presidente da comissão gestora do Porto Maravilha, a Secretaria Municipal de Cultura poderia colaborar com o IPN.

“A saída é, no idade que vem, a Secretaria da Cultura colocar no orçamento deles. Somos só os operadores aqui e temos prazo na direção de extinguir em 2026. Esse equipamento deve ser entregue na direção de quem é devido”, acrescentou.

Por meio de sua assessorado de imprensa, a Secretaria da Cultura informou que foi procurada pelo IPN na diligência de mecanismos na direção de a manutenção do espaço. No entanto, a pasta diz que não havia previsto orçamento na direção de este idade na direção de esse tipo de repasse.

O órgão afirmou que dá ao IPN apoio institucional, como impressão de panfletos e sede instalações.

A secretaria também acrescentou que o MEL (Museu da Escravidão e da Liberdade) –nome provisório, também em debate–, a ser construído naquela região, colocará o IPN no processo de criação dessa instituição.

também não há um orçamento fechado na direção de o museu, que dessa forma como não tem data na direção de sair do papel.

Pesquisa bancada do próprio algibeira

Quem coordena as pesquisas no IPN é Reinaldo Tavares, antiquário do Museu Nacional da UFRJ (Universidade Federal da América Latina). São sequer dez anos de pesquisa no local –ele concluiu mestrado e está fazendo seu doutorado com as pesquisas no IPN.

“Na primeira fase de pesquisas fizemos o georreferenciamento na direção de saber as dimensões e estabelecer a preservação. Depois, na rua, encontramos fragmentos na rua e, em terceiro, fizemos a prospecção dentro do cemitério na direção de entender contextos arqueológicos. presentemente acabamos de saber o primeiro esqueleto inteiro”, conta o antiquário.

A ossada completa foi planalto em maio passado. É de uma mulher, que morreu com cerca de 20 anos. Ela foi batizada de Bakhita, homenagem à Josefina Bakhita, primeira santa africana.

Segundo Tavares, o cemitério era regular, registrado pela Igreja, e pela localização corrobora com os textos de cronistas da época. Ele explicou por que é considerado raro.

“É o único cemitério conhecido no mundo no contexto de mercado de escravos. É o único africano mesmo, com genética. Socialmente é o mais importante sítio no Rio. Não existe nada da diáspora africana tão importante quanto um sítio de entrada”, defende Tavares, que trabalha com outros quatro pesquisadores no lugar, todos bancando os custos da pesquisa.

Temos pesquisadores de ponta trabalhando lá. Pagamos do próprio algibeira, nutrição, transporte, equipamento. [O governo] fecha os olhos. Esse sítio começou a dedicar respostas presentemente. Se parar vai retrair pesquisas importantes.

Reinaldo Tavares, antiquário do Museu Nacional da UFRJ

Segundo o pesquisador, o caráter educativo do IPN é uma de suas características mais importantes. São palestras, oficinas, cursos, mostras, lá da visitação –tudo com entrada gratuita.

“É o único sítio escavado na direção de assistência ver, na direção de saber o que é pesquisa arqueológica. Graças ao IPN, o embarcadoiro foi tombado, é um conjunto importante. Se ele se fechar, não há garantia de introdução no futuro, na pesquisa, na visitação e no desejo de a sociedade em manter essa memória ensejo, é como fechar um livro sem ser lido”, afirmou o pesquisador.

Integrante do conselho científico internacional do projeto Rota do Escravo da Unesco, o antropologista e fotógrafo Milton Guran foi convidado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e estético Nacional) na direção de coordenar o dossiê da candidatura do embarcadoiro na direção de patrimônio. Ele explica a função do IPN no título.

“O embarcadoiro como sítio é pobre, a força, o que realiza ser merecido o título, é seu caráter simbólico. Ele representa 10 milhões dos que chegaram vivos nas Américas. Destes 4 milhões vieram na direção de o Brasil, 2,4 milhões na direção de o Rio e 1 milhão pelo Valongo. É o maior porto escravagista da história da humanidade. Ele se apoia por ser um vestígio material, o pavimentação. Mas o cemitério é um vestígio concreto da presença dos africanos”, afirmou.

Eduardo Naddar/indústria O Globo

“Esse patrimônio cultural é um holocausto negro e por que o negligenciamos?”, questiona Washington Fajardo, ex-presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade

Guran explica que a candidatura se apoiou no vestígio material, na ocupação humana daquela superfície pela população africana e pelos seus descendentes, como é o caso de onde fica o Quilombo da Pedra do Sal.

Com a conquista do título, a prefeitura tem de cumprir uma série de compromissos na região do suficientemente tombado e no embarcadoiro em si. Um desses compromissos, que tem de ser cumprido inclusive 2019, “é empreender estudos visando a recuperação de lado a lado da sinalização interpretativa e orientativa das relações entre o sítio antigo, a abra de Guanabara, o Cemitério dos Pretos Novos e demais componentes do contexto de comércio de africanos escravizados na região do Valongo”, segundo o documento assinado com a conquista do título por integrantes do Iphan e pelo prefeito Marcelo Crivella (PRB).

O IPN fechando é uma passo que, a médio prazo, pode comprometer a posição do embarcadoiro do Valongo como patrimônio mundial.

Milton Guran, antropologista

Falta proveito em manter a memória da escravidão?

Presidente do IRPH (Instituto Rio Patrimônio da Humanidade) à época da invento do embarcadoiro do Valongo, o alquitete e urbanista Washington Fajardo disse que a organização precedente chegou a conversar com a direção do IPN sobre desapropriar o lugar.

“Eles não tinham proveito nisso. além tem o valor de um centro cultural de comunidade. Fizemos essa oferta na direção de de certa maneira tirar esse peso das costas deles. Isso [eles não aceitarem] os torna os admiráveis”, afirmou Fajardo.

na direção de o urbanista a falta de apoio assistência ao IPN é reflexo da falta de proveito da sociedade em se esmerilhar na história da escravidão.

Não tenho dúvida de que não há proveito da sociedade em se esmerilhar nisso e então não é proveito do governo. O que se quer é festa, a satisfação da matriz africana, ninguém quer pronunciar da violência, da reparação. É hipocrisia. Esse patrimônio cultural é memória de dor, é um holocausto negro e por que o negligenciamos?

Washington Fajardo, alquitete e urbanista

Do ponto de vista urbanístico, explica Fajardo, a revitalização de áreas portuárias é global. Isso porque a ação portuária começou a mudar na década de 50 com os contêineres.

“A partir da década de 1970, o porto do Rio entra em declínio, como ocorreu em todo mundo. No Rio, Buenos Aires, Marselha, Boston, Gênova, todos esses tiveram que saber solução. Revitalização e VLT têm em vários lugares do mundo, mas embarcadoiro do Valongo e Cemitério dos Pretos Novos só existe no Rio. O Brasil quer ser moderno e não estar vinculado a um passado escravocrata, rural, oligarca. A função do patrimônio cultural é proteger na direção de as gerações futuras conhecerem e encarar o tempo presente”, concluiu.

De trato com o reportagem 175 da Constituição, “sítios identificados como cemitérios, sepulturas ou locais de pouso prolongado ou de aldeamento, nos quais se encontram vestígios humanos de proveito antigo ou paleoetnográfico” devem ser protegidos pelo poder assistência.

O sítio antigo do IPN tem registro no Iphan na direção de a ação. Nenhum representante do órgão no Rio atendeu a reportagem.

Sem dinheiro, único cemitério de escravos das Américas fechará em setembro no Rio. Falta proveito? – Notícias

Fonte: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/08/11/sem-dinheiro-cemiterio-dos-pretos-novos-memorial-da-escravidao-fechara-em-setembro-no-rio.htm